Jandira
Carlos
da Terra
“requiescant
in pace
sub
rosea
frigida
non
vides”
Pode o terror invadir minha sala e meus aposentos; eu sei que pode!
Há também os ladrões vulgares e de má aparência que me
assombram, mas esses são durante o dia.
À noite a solidão
me vem abruptamente e às vezes eu acordo assustada, saindo de um
sonho agradável para a realidade triste e outras vezes de um sonho
terrível para uma realidade ainda mais tenebrosa.
Encontro-me só!
Mas logo sinto alguma coisa encostar docemente sobre os meus pés,
sobre a coberta que os aquece, e vejo que não estou totalmente só.
Tenho a minha cadelinha, a Meg, uma poodle
que me acompanha há tristes e solitários quinze anos.
Ela já passou por
várias operações veterinárias.
Certa vez, ela
operou de um câncer e eu sofri muito a ausência dela enquanto ela
estava no hospital e gastei um dinheirão – pensava Jandira e
arrematava – mas ela é como se fosse filha! E eu sinto que ela
pode afastar os fantasmas. É como uma filha, costumo dizer; mas eu
produzi dois filhos verdadeiros. Meus dois filhos, um homem e uma
mulher, já formados e bem estabelecidos, moram longe e não hesitam
em me rechaçar quando digo, todas as vezes que os vejo, o meu mais
elementar desejo que é o de morar com eles.
Logo desconversam
como se eu fosse incapaz de saber o que é bom para mim e dizem que
estou bem aqui. Depois passam semanas longe daqui e apenas me
telefonam ora para nada, ora para pedir dinheiro.
Esta noite acordei
com um barulho estranho! A Meg não latiu nem
nada e parece dormir tranquila, mas tenho certeza houve um barulho na
janela da frente.
Levantei-me e fui
olhar com o coração pulsando mais forte e lá fora as roseiras
balançavam com o vento forte. Eu mesma plantei essas roseiras...
gosto de rosas; rosas vermelhas! Elas são como eu, solitárias e
procuram, de um modo ou de outro, tornar a vida de outras pessoas
mais alegres. E também, como eu própria, se ferem, se agitam e
sofrem demonstrando em suas pétalas partidas. Eu gostaria de ver
rosas por toda a eternidade.
Deus há de me
acolher e permitir-me isso.
A noite, hoje, é
fria e ventosa. O vento uiva como os lobos das histórias tristes que
meus pais me contavam na minha remota infância e esse barulho me
penetra o fundo da alma. A solidão me comprime o peito e eu sinto
dores terríveis; pressinto a proximidade de minha morte.
Parece que quando
falo sobre minhas dores e meus sentimentos as pessoas ou não
entendem ou fazem de conta que não entendem. O frio aumenta muito as
minhas dores.
Mas a dor maior é
a solidão, porque toda a mulher pode suportar maravilhosamente as
dores físicas, o próprio parto de meus dois filhos me ensinou isso,
mas uma mulher não suporta o abandono e a solidão.
E hoje minha casa
está cheia, mas eu não os quero aqui. Perambulam pela casa,
bebem... falam alto... eu não os quero. Demônios!
Quem os mandou
aqui? Esta é minha casa, viram bem? Minha casa!
E a noite não
termina...
Eles falam muito
alto e fazem algazarra, mas não falam comigo. Parece que não me
escutam também!
Deus meu! Valha-me
Nossa Senhora, que eu não posso sair daqui nesta escuridão. Meus
filhos estão longe e dizem sempre que isto é o melhor para mim. Que
horror!
Um dos fantasmas
está me olhando com o cenho franzido. Será que ele quer me
violentar? Eu não quero conversa com essa gentinha.
Venho de uma
educação nobre... sou uma dama; falo francês e sou especial. Essa
gente baixa é desagradável, é uma sub espécie que precisa de
caridade. Sempre faço caridades e quando alguém vem à minha porta
pedir dinheiro ou comida, sempre dou. E é melhor fazer isso ou se
sujeitar a eles voltarem para coisas piores.
E esse fantasma
que me olha fixamente parece um desses! E ele começou a mover-se em
minha direção.
Não posso correr,
minha perna dói, e eu estou cansada. Minha saída é o telefone.
Alô! Foi
você quem os mandou aqui? Eu não quero essa gente aqui! Por que
você fez isso? A casa é minha!
E do outro lado
apenas alô, alô e a sensível incompreensão do interlocutor. Acham
que estou sonhando, mas estes fantasmas são muito reais. Sinto medo,
pavor!
É melhor eu
deixar o telefone quieto e sair daqui rapidamente porque eles podem
se zangar e violentar-me ou matar-me.
Vem Meg!
Vamos para o quarto... depressa!
Jandira fechou a
porta rapidamente porém evitando qualquer ruído e se recolheu em
baixo das grossas cobertas de sua solitária cama de casal; a Meg,
como legítima guardiã das causas terrenas, postou-se sobre a
coberta e sobre os seus pés, causando a sensação agradável do
calor que aliviava suas dores reumáticas. Mas contra os fantasmas a
Meg nada podia fazer.
Muitas noites
parecidas já haviam passado dessa forma e restava esperar que essa
também passasse.
Fechando os olhos
Jandira procurou rezar. A noite não passava... era comprida demais.
E eu não quero incomodar ninguém... pensava!
No quarto
imaginou-se segura quando percebeu que a cama fez um movimento
estranho; poderia ser a Meg, mas ela parecia
dormir profundamente.
Não.. não era a
Meg. Um fantasma se escondeu em meu quarto e
está aqui para fazer-me o mal; preciso sair daqui!
A sala agora
parece vazia, vou para lá e ficar próximo ao telefone; quem sabe
meus filhos me telefonam.
Caminhando
rapidamente esqueci por completo de três degraus da sala que levam à
um rebaixamento de solo, onde se encontra o telefone e caí.
Que dor
insuportável! E eu não consigo arrastar-me até o telefone; estou
muito gorda, preciso emagrecer! Mas como dói... acho que vou morrer!
E Jandira
desfaleceu...
O sol matutino
veio silenciosamente iluminar a roseira e o entregador de comida
chegou lá pelas dez horas.
Muito estranho que
Jandira não o estivesse esperando e o toque à campainha produziu
apenas o frenético latido da Meg.
O entregador
imediatamente chamou o socorro médico que arrombou a porta e a
encontrou caída no solo com a Meg aos seus
pés.
Jandira jazia
morta!
A solidão de sua
indesejável clausura fora seu carrasco implacável.
Na lápide se
escreveu :
“descansa em paz sob a rosa fria que não mais vês”.