quinta-feira, 5 de setembro de 2013


Jandira


Carlos da Terra

requiescant in pace

sub

rosea frigida

non vides


Pode o terror invadir minha sala e meus aposentos; eu sei que pode! Há também os ladrões vulgares e de má aparência que me assombram, mas esses são durante o dia.
À noite a solidão me vem abruptamente e às vezes eu acordo assustada, saindo de um sonho agradável para a realidade triste e outras vezes de um sonho terrível para uma realidade ainda mais tenebrosa.
Encontro-me só! Mas logo sinto alguma coisa encostar docemente sobre os meus pés, sobre a coberta que os aquece, e vejo que não estou totalmente só. Tenho a minha cadelinha, a Meg, uma poodle que me acompanha há tristes e solitários quinze anos.
Ela já passou por várias operações veterinárias.
Certa vez, ela operou de um câncer e eu sofri muito a ausência dela enquanto ela estava no hospital e gastei um dinheirão – pensava Jandira e arrematava – mas ela é como se fosse filha! E eu sinto que ela pode afastar os fantasmas. É como uma filha, costumo dizer; mas eu produzi dois filhos verdadeiros. Meus dois filhos, um homem e uma mulher, já formados e bem estabelecidos, moram longe e não hesitam em me rechaçar quando digo, todas as vezes que os vejo, o meu mais elementar desejo que é o de morar com eles.
Logo desconversam como se eu fosse incapaz de saber o que é bom para mim e dizem que estou bem aqui. Depois passam semanas longe daqui e apenas me telefonam ora para nada, ora para pedir dinheiro.
Esta noite acordei com um barulho estranho! A Meg não latiu nem nada e parece dormir tranquila, mas tenho certeza houve um barulho na janela da frente.
Levantei-me e fui olhar com o coração pulsando mais forte e lá fora as roseiras balançavam com o vento forte. Eu mesma plantei essas roseiras... gosto de rosas; rosas vermelhas! Elas são como eu, solitárias e procuram, de um modo ou de outro, tornar a vida de outras pessoas mais alegres. E também, como eu própria, se ferem, se agitam e sofrem demonstrando em suas pétalas partidas. Eu gostaria de ver rosas por toda a eternidade.
Deus há de me acolher e permitir-me isso.
A noite, hoje, é fria e ventosa. O vento uiva como os lobos das histórias tristes que meus pais me contavam na minha remota infância e esse barulho me penetra o fundo da alma. A solidão me comprime o peito e eu sinto dores terríveis; pressinto a proximidade de minha morte.
Parece que quando falo sobre minhas dores e meus sentimentos as pessoas ou não entendem ou fazem de conta que não entendem. O frio aumenta muito as minhas dores.
Mas a dor maior é a solidão, porque toda a mulher pode suportar maravilhosamente as dores físicas, o próprio parto de meus dois filhos me ensinou isso, mas uma mulher não suporta o abandono e a solidão.
E hoje minha casa está cheia, mas eu não os quero aqui. Perambulam pela casa, bebem... falam alto... eu não os quero. Demônios!
Quem os mandou aqui? Esta é minha casa, viram bem? Minha casa!
E a noite não termina...
Eles falam muito alto e fazem algazarra, mas não falam comigo. Parece que não me escutam também!
Deus meu! Valha-me Nossa Senhora, que eu não posso sair daqui nesta escuridão. Meus filhos estão longe e dizem sempre que isto é o melhor para mim. Que horror!
Um dos fantasmas está me olhando com o cenho franzido. Será que ele quer me violentar? Eu não quero conversa com essa gentinha.
Venho de uma educação nobre... sou uma dama; falo francês e sou especial. Essa gente baixa é desagradável, é uma sub espécie que precisa de caridade. Sempre faço caridades e quando alguém vem à minha porta pedir dinheiro ou comida, sempre dou. E é melhor fazer isso ou se sujeitar a eles voltarem para coisas piores.
E esse fantasma que me olha fixamente parece um desses! E ele começou a mover-se em minha direção.
Não posso correr, minha perna dói, e eu estou cansada. Minha saída é o telefone.
Alô! Foi você quem os mandou aqui? Eu não quero essa gente aqui! Por que você fez isso? A casa é minha!
E do outro lado apenas alô, alô e a sensível incompreensão do interlocutor. Acham que estou sonhando, mas estes fantasmas são muito reais. Sinto medo, pavor!
É melhor eu deixar o telefone quieto e sair daqui rapidamente porque eles podem se zangar e violentar-me ou matar-me.
Vem Meg! Vamos para o quarto... depressa!
Jandira fechou a porta rapidamente porém evitando qualquer ruído e se recolheu em baixo das grossas cobertas de sua solitária cama de casal; a Meg, como legítima guardiã das causas terrenas, postou-se sobre a coberta e sobre os seus pés, causando a sensação agradável do calor que aliviava suas dores reumáticas. Mas contra os fantasmas a Meg nada podia fazer.
Muitas noites parecidas já haviam passado dessa forma e restava esperar que essa também passasse.
Fechando os olhos Jandira procurou rezar. A noite não passava... era comprida demais. E eu não quero incomodar ninguém... pensava!
No quarto imaginou-se segura quando percebeu que a cama fez um movimento estranho; poderia ser a Meg, mas ela parecia dormir profundamente.
Não.. não era a Meg. Um fantasma se escondeu em meu quarto e está aqui para fazer-me o mal; preciso sair daqui!
A sala agora parece vazia, vou para lá e ficar próximo ao telefone; quem sabe meus filhos me telefonam.
Caminhando rapidamente esqueci por completo de três degraus da sala que levam à um rebaixamento de solo, onde se encontra o telefone e caí.
Que dor insuportável! E eu não consigo arrastar-me até o telefone; estou muito gorda, preciso emagrecer! Mas como dói... acho que vou morrer!
E Jandira desfaleceu...
O sol matutino veio silenciosamente iluminar a roseira e o entregador de comida chegou lá pelas dez horas.
Muito estranho que Jandira não o estivesse esperando e o toque à campainha produziu apenas o frenético latido da Meg.
O entregador imediatamente chamou o socorro médico que arrombou a porta e a encontrou caída no solo com a Meg aos seus pés.
Jandira jazia morta!
A solidão de sua indesejável clausura fora seu carrasco implacável.
Na lápide se escreveu :
“descansa em paz sob a rosa fria que não mais vês”.










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